A política alagoana caminha para mais um confronto entre dois grupos que há décadas ocupam posições de destaque no cenário estadual e nacional. De um lado, os Calheiros. Do outro, os Caldas. Mais do que uma disputa eleitoral, o embate coloca novamente em discussão um fenômeno antigo: a concentração do poder em torno de famílias, aliados e círculos políticos próximos.
Pai para filho. Marido para esposa. Irmão para irmão. Primo para primo. Compadre para comadre.
A sucessão de nomes ligados aos mesmos núcleos políticos cria a percepção de que parte da política continua funcionando sob uma lógica quase hereditária, na qual estruturas construídas ao longo de décadas ajudam determinados grupos a permanecer no centro das decisões.
O problema não está no sobrenome de quem disputa uma eleição. Em uma democracia, qualquer cidadão que cumpra os requisitos legais pode ser candidato. A questão começa quando poder político, estrutura partidária, capacidade econômica, influência institucional e redes de aliados se acumulam de tal maneira que a renovação passa a enfrentar barreiras cada vez maiores.
É nesse ponto que Alagoas precisa fazer uma pergunta incômoda: estamos escolhendo livremente nossos representantes ou apenas alternando integrantes e aliados dos mesmos grupos de poder?
A democracia pressupõe competição. Pressupõe pluralidade. Pressupõe oportunidade real para que novas lideranças possam surgir e disputar o voto em condições minimamente competitivas.
Quando a política passa a orbitar permanentemente em torno de poucos sobrenomes, existe o risco de transformar eleições em confrontos entre estruturas consolidadas, enquanto candidatos sem patrimônio político familiar, recursos financeiros ou grandes alianças começam a corrida muitos metros atrás.
Isso não significa afirmar que exista ilegalidade simplesmente porque familiares ocupam cargos públicos ou disputam eleições. Tampouco significa retirar do eleitor sua responsabilidade e liberdade de escolha. O voto continua sendo o instrumento fundamental de legitimação democrática.
Mas naturalizar a concentração do poder também é perigoso.
O duelo entre Calheiros e Caldas pode até movimentar multidões, prefeitos, vereadores, partidos e lideranças. Porém, acima da pergunta sobre qual família vencerá, existe outra muito mais importante:
Quando Alagoas deixará de discutir apenas quem controla o poder e começará a discutir como impedir que o poder fique concentrado nas mãos de poucos?
Democracia não deveria ser patrimônio de família.
Muito menos herança de sobrenome.